Vou-me atirar para o lixo juntamente com os esboços de outros poemas.
Afinal sou apenas um esboço de pessoa.
Um pingo de gente derramado no colchão, cujo pescoço se arrepia
ao sentir o frio que se aproxima.
Uma nódoa de pequenas dores de noites mal dormidas por razões indefinidas.
Uma caricatura de mim próprio que não ousa rir-se do desenho no espelho,numa certa contradição entre o sentir e o fazer.
Sou uma criatura ditada pela normalidade para um caderno engalanado de homem,que pouco reclama, que pouco pede,sem agitações, sem estardalhaços,cheio de dúvidas e de hesitações.
Se levanto muito a cabeça algo acontece para me recordar quem sou,
sendo atropelado pela realidade do esboço,numa dor angustiante de quem perde,depois de afagar o pêlo sedoso da vitória,
naquela emoção de quase, quase a domesticar e levar para casa.
Quase... Quase...
Essa palavra é me tão familiar...
Mas
por vezes sinto-me uma branca folha de papel, cheia de potencial,
onde se pode escrever tudo,
um poema, um livro, um desenho, um esboço...
Um esboço que pode ser o começo de algo muito importante.
E é a isso que devo agarrar-me.
A esta ideia de que talvez seja o esboço
de algo sublime que irá acontecer brevemente.
Até lá, sou um esboço de pessoa.
À espera...
Não desistindo.
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